História em imagem

Nima Spigolon

O Paulo Freire que conhecemos, não existiria sem Elza. Começo assim, com uma evidência de algo que foge à regra, à risca, ao ruído. 


Sistematizar, desde 2006, um conjunto de fontes, primárias ou não, documentais, iconográficas, em torno do casal Freire: Elza e Paulo, é algo a que tenho me dedicado quase integralmente ao longo da minha vida acadêmica. E, por isso, a frase acima: porque vida e obra são inseparáveis. A fotobiografia de Paulo está amalgamada por Elza, portanto o trabalho sequenciado à frente das páginas que se seguem agrupa Elza e Paulo Freire do Recife e do Brasil (1916-1964), atravessa o exílio político (1964-1979), desemboca no reaprender o Brasil (1980-1986), e finaliza com fragmentos do post mortem, a partir de 1986. 

 

Tal projeto, a fotobiografia, visa preservar a memória de Paulo Freire, com destaque à participação de Elza Freire na sua vida e obra, e reconhecer a importância dela e de seus filhos para o seu pensamento político-pedagógico e sua pauta humanitária. 

 

Em 2024, completaram-se 80 anos do casamento entre eles, o que torna ainda mais importante o registro de suas vidas, sempre vinculadas à educação e às causas políticas e sociais, seja no Brasil ou no exterior.


Estabelecer-se nesse encontro de datas, fatos, fotos e documentos, mediado por letras, sonhos e história, definitivamente é difícil e delicado. Sou envolvida por uma alta carga de emotividade, ao lado da folha de papel, o peso da caneta, o esforço muscular e as subjetividades.

Paulo Freire diz que gostaria de ser lembrado como alguém que amou as pessoas, as plantas, as águas, os animais. Também diz que, enquanto seres humanos nos encontramos em incompletude, o que nos provoca a proeza da coletividade. A educação é um dos caminhos de comunhão. Um esforço e uma alegria coletiva da potência de nossas criatividades e dialogicidades para ler o mundo, se compreender nele, transformar as suas realidades e ampliar sua boniteza a partir da amorosidade e do inédito-viável.


Elza e Paulo, um casal que desde os anos de 1950 revoluciona o mundo por meio da educação. Mas antes de tudo, um casal aprendente dos processos, dos seres, do mundo que amaram e no qual se inseriram em prol da humanidade.


Foi preciso medo e ousadia, ao lado de coragem e inspiração. Que ousemos mais em outras lógicas de pesquisa, em outras lógicas de mundo, buscando as ensinagens e as aprendizagens pelas vias da

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experiência e da amorosidade, sem nos afastar do esperançar e da luta política. Que ousemos mais em fazer um texto a caneta na Idade da Mídia, e de se formar professor no Brasil, de resistência da vida em seus fundamentos éticos e estéticos.

 

O livro, contemplado pelo ProAc Edital Fomento CultSP PNAB nº 28/2024, em formato impresso, digital e audiobook, proporcionará a pesquisadores, profissionais da educação e demais áreas e admiradores de Paulo Freire pelo mundo o acesso a um conjunto de fontes, muitas delas primárias, como por exemplo: documentos pessoais, fotos de família e cartas. A sistematização do material contou com visitas a arquivos, acervos, países, cidades; com a contribuição dos familiares, amigos e companheiros de trabalho do casal; e com a realização de mestrado, doutorado, pós-doutorado e livre docência.


Cabe ressaltar o compromisso em distribuir gratuitamente um montante de livros mediante apoio cultural para instituições de ensino superior, órgãos governamentais, escolas, bem como garantir a acessibilidade por meio dos vídeos confeccionados para divulgação e leitura de trechos do livro, que contarão com legenda e janela com intérprete de Libras.


Na inconclusão, a experiência de pensar, repensar, sentir e escrever tendo a “fotobiografia de Elza Freire e Paulo Freire” como referência me fez mais gente, é assim que me sinto! E isso foi só fragmento dos horizontes Elza-Freireanos, que são nossos também, que representam um convite a problematizar algo que foge à regra, à risca, ao ruído.